17 Novembro 2005

CATECISMOS

Para alguns batistas, este assunto deve parecer completamente estranho se não inoportuno ou obsoleto. A razão é simples: nós, batistas no Brasil, não temos uma tradição de catecismos. Na realidade, nossos pioneiros, missionários e pais, nas primeiras décadas da história batista no Brasil, mais especificamente até a década de 1930, travaram severa luta por sua sobrevivência e expansão neste país, recorrendo a uma apologética eminentemente anticatolicismo romano. E parece que não poderia ser de outra maneira. Isto se manifestou em suas publicações, pregações, etc. Num país de catolicismo tridentino (contra-reformado), fortemente influenciado pela catequese jesuíta, e ultramontano, não pareceu bem aos nossos pioneiros batistas no Brasil a utilização de catecismos. Catequese no Brasil foi instrumento de colonização, e muitas vezes agressiva e cruel, tendo notabilizado alguns religiosos como José de Anchieta e Manoel da Nóbrega. Assim, catecismos pareciam a alguns como se fossem “trapos do catolicismo”. É certo que em outros países, especialmente nos Estados Unidos (nação que mais nos influenciou em termos missionários), da última parte do século XIX até o pós-guerra no século XX, a utilização de catecismos também perdeu prestígio. Mas no Brasil, com toda certeza, a resistência sempre foi bem maior, comparativamente falando.

Porém, deve ser dito que o método de ensino através de perguntas e respostas tem sido utilizado pela Igreja desde os seus primórdios, inclusive com alguns historiadores sugerindo que sua utilização remonta aos tempos bíblicos. Este método tem sido utilizado para instrução de novos crentes em preparação para o batismo, para devoção pessoal e familiar, como manual de instrução popular, e para fins apologéticos. A palavra catecismo, utilizada mais tarde para este método, deriva-se do grego katecheo, que significa instruir. Durante a era medieval o sistema de catecismos declinou, e entre as razões para isso está o fato de que o batismo de crianças tornou-se regra.

Os primeiros catecismos dos tempos modernos originaram-se da Reforma, ao contrário de muita gente supor que foi da Contra-Reforma Católica. Como diz Dr. Thomas Nettles, a “Era Dourada dos Catecismos” foi a Reforma. Os Batistas no início também foram pródigos em utilizar este método. Quando ainda era professor no Seminário Batista de Fort Worth, Texas, Nettles escreveu um bom livro sobre o assunto (Baptist Catechisms – Able to make Thee Wise Unto Salvation, 1982, 155 páginas) onde faz alentada introdução sobre o assunto, e traz dois catecismos ingleses (Bunyan e Keach) e oito norte-americanos, incluindo os de Boyce e Broadus (que foram fundadores e professores no Seminário Batista de Louisville, Kentucky). Recentemente, o casal Timothy e Denise George publicou um outro excelente livro sobre o assunto, Baptist Confessions, Covenants, and Catechisms; a collection of Baptist confessions, covenants and catechisms (282 páginas - ISBN: 0805420762,
Broadman & Holman. Esta obra consta da indicação de livros no web-site da CRBB). O catecismo de Spurgeon foi publicado em 1855 quando Spurgeon tinha 21 anos. Ele é amplamente baseado no catecismo de Westminster, e consta de 82 perguntas. Há diversas cópias na Internet, inclusive com textos-prova.

Pelo que me consta, o único catecismo publicado pelos batistas no Brasil foi o Catecismo da Doutrina Baptista, por W. D. T. MacDonald, missionário batista no Chile. Ele foi vertido do espanhol e publicado em 1937 pela Casa Publicadora Batista, da CBB, com uma tiragem de 5.000 exemplares (entre os quais um está aqui comigo). É inegavelmente um catecismo de doutrina calvinista.

Eu, particularmente, gosto da estrutura do Catecismo Menor de Westminster, e já existe uma revisão/recensão batista deste catecismo, mantendo a mesma estrutura lógica de Westminster. Esta se encontra somente em inglês, e tem sido amplamente utilizado por leitores daquele idioma. Trata-se de The Shorter Catechism; A Modest Revision for Baptist Today (38 páginas,
Truth For Eternity Ministries), e também consta da indicação de livros no web-site da CRBB. Como disse, este catecismo é baseado no Catecismo Menor de Westminster, argumentado e revisado com referências do “Catecismo de Keach”, e num esboço de revisão da Confissão de 1689. Ele foi publicado em 1991 pela Igreja Batista Reformada em Grand Rapids, Michigan, e mantém, através das suas perguntas, o mesmo esboço do catecismo menor de Westminster, a saber:

1-4 – Introdução Geral

5-41 – I. Nossa Fé

5-12 – A. Deus: Natureza e Obras
13-20 - B. Homem e Pecado
21-29 – C. Cristo: Pessoa e Obra
30-41 – D. A Aplicação da Redenção

42-111 – II. Nosso Dever

42-87 – A . Na Lei
88-111 – B. No Evangelho

88 – Introdução

89-90 – As Exigências do Evangelho
91-111 – Os Meios Externos do Evangelho

91 – Introdução

92-93 – A . A Palavra
94-100 – As Ordenanças
101-111 – Oração

A mesma editora tem já um bom material que pode ser utilizado para classes de “catecúmenos”, com ilustrações e recursos didáticos, texto programado, etc. O Pastor Jim Orrick, que já foi preletor na Conferência da Editora FIEL no Brasil, compôs inclusive músicas (gravadas em CD) para ajudar na memorização, conforme outro irmão de nossa CRBB tem lembrado.

Foi também preparada uma versão deste catecismo para “crianças pequenas”, e publicada pela mesma Igreja em 1993. Este possui 130 perguntas, mas mantém a mesma estrutura de Westminster e do anterior. As perguntas e respostas, porém, são bem mais simples. O Sr. Bill Barkley, da
Editora PES (Publicações Evangélicas Selecionadas), publicou em português uma versão similar deste catecismo batista “para meninos e meninas”, com 134 perguntas, que também consta da indicação de livros no web-site da CRBB.

Para alguém que deseja ministrar dominicalmente um catecismo reformado em sua Igreja, um bom modelo talvez seja o Catecismo de Heidelberg, de 1563, publicado em português pela
Editora Cultura Cristã. Ele utiliza o método de distribuir as suas 129 perguntas nos 52 domingos do ano. Uma dificuldade aqui pode ser que o catecismo não é batista, implicando na necessidade de alguma adaptação ao ser ministrado.

Gilson Santos

(Publicado originalmente em www.gilsonsantos.com.br)


3 Comentários:

Anônimo disse...

Gilson,
não apenas é um bom material, mas também oportuníssimo. Tenho estado sensível para as referências, na lista da CRBB, a igrejas em processo de formação em sua versão reformada e estou certo de que um catecismo bem formulado é um excelente meio de essas congregações lidarem com o ensino da fé a crianças e jovens e a crentes novos, por pelo menos dois motivos:
· se pensados como currículos, são, em geral, curtos para caber em alguns poucos meses, talvez um ano;
· por estarem, em geral, associados a uma confissão, têm uma abrangência temática maior, mas funcionam como esboços que podem ser “preenchidos” conforme a capacidade dos mestres e prontidão dos discípulos;
Além disso, já está mais do que na hora de os batistas brasileiros deixarem de ser anti-católicos como definição de sua identidade – talvez possamos voltar a usar palavras como “catecismo”, “sacramentos” e “eucaristia”, sem os ataques de urticária que acometiam nossos pais e avós (justificadamente, diga-se de passagem, para ninguém achar que sou revisionista).
Abraços.
Alberto

Sexta-feira, 18 Novembro, 2005  
Juan de Paula disse...

Eu usei uma versão resumida de Heildeberg de 1970 de uma igreja reformada (hungará acho eu) que se instalou em Sampa com uma família que catequizei na igreja de Cosme Velho. Franklin e eu pensamos em adotar Heildeberg para preparação de batismo mas achamos muito pesado para candidatos a batismo e a serem membros por transferência e aclamação, por isso estamos vendo se preparamos um catecismo comentando o decalogo, o pai nosso e o credo apostólico e Franklin conversou sobre eu usar o espaço da monografia de bacharelato para isso!

Creio que devemos resgatar sim a prática da catequese e é só ver o que aconteceu em Kiddminster quando Richard Baxter catequisava 7 a 10 famílias por dia.

A questão é como resgatar a catequese nas escolinhas dominicais as vezes viciadas em revistas, algumas até legais, mas outras carentes de doutrina e até mesmo conteúdo bíblico.

Abração a todos!!!!!!
Juan de Paula

Quinta-feira, 24 Novembro, 2005  
Anônimo disse...

Caro Gilsos:

Por sermos uma Igreja Batista confessante, não temos dificuldade em usar o catecismo em nossa igreja em Petrolandia e Jatobá - Pe. Em Jatobá como igreja recente-menos de tres anos- já estudamos toda a Confissao de 1689 e atualmente estamos estudando simultaneamente OS DEZ MANDAMENTOS NO Breve Catecismo e NO Catecismo Maior de Westminster. Somos quatro adultos mais oito adolescentes e crianças. Todos gostam do modo como os catecismos são elaborados e aprendem as doutrinas com facilidade.Como não possuímos uma formação anti-católica, o termo catecismo não causou estranheza na comunidade.

aldo vasconcelos

Sábado, 10 Dezembro, 2005  

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